eu sempre achei que novela era uma perda de tempo, ainda mais se tratando de uma novela da globo. e se for do manoel carlos com todas os seus temas prosaicos (ou seriam prozacs, tendo em vista o ânimo estranho dos personagens na maioria dos desfechos das cenas), pior ainda. nessa horas, uma bulimia me atinge e só falto correr para o banheiro. vez ou outra um milagre acontece e algo foge ao controle da pasmaceira padronizada global.
esse padrão foi brevemente interrompido na sexta passada, quando foi ao ar o fim de "cobras e lagartos", a última novela das sete, protagonizada pelo incensado lázaro ramos, no papel de foguinho. 
a teledramaturgia da globo nos brindou com uma alegoria escatológica muito interessante, quando foguinho morreu e foi para uma espécie de limbo. alguém aí também viu isso? foi ou não foi interessante?
após bancar o herói, salvando o mocinho da novela e o filhinho desse de uma mansão em chamas, foguinho sucumbiu. os bombeiros não conseguiram, num primeiro momento, resgatá-lo vivo. e ele padeceu com um colar ortopédico, imobilizado na maca da ambulância da SAMU. há um corte na cena e então, vemos foguinho vagando pelas cercanias da central do brasil, com uma imensa multidão que se dirige às catracas da estação de trem, num clima "blade runner ensolarado" ou "a última esperança da terra" . totalmente desorientado, ele acaba por descobrir que dançou e que a galera toda está indo para o inferno. ou o paraíso. dependendo da cor da ficha que se está portando. a ficha que está com foguinho é: vermelha. vendo que o caldo literalmente vai engrossar, o cara fica desesperado.
regulando a entrada para os trens, há um anjo ridículo com um pijaminha branco, um halo de algodão e com asas de arame e penas. o anjo fica bolado com foguinho, que protesta como todo bom brasileiro, dizendo que há alguma coisa errada, visto que ele acabara de salvar a vida de um pai e seu filho e, por isso, deveria estar redimido.
eis que entra em cena, o (ex-)milionário omar pasquim, cover de giorgio armani, morto no começo da novela. morador do que parece ser o paraíso, omar passa um caô no anjo-bilheteiro e consegue liberar foguinho para entrar no céu.
omar avisa, em tom amigável, ao recém-chegado mutuário que ele vai gostar muito de lá.
corta a cena e no áudio se ouve o bonde do tigrão interpretando o genial "malha funk". geral tá dançando e foguinho no meio da mulherada arregaça nos passes libidinosos, comemorando sua nova morada. omar pode ser visto numa espécie de platô acima de todos, dançando com elegante imperícia, quase que nem um dedé aka homobono. esse é o céu de foguinho.
desse lado da vida, a thais araújo numa tentativa desesperada e bisonha, aplica um eletrochoque no corpo de foguinho com um desfibrilador, que não demora nada para levar carga. já na primeira aplicação, foguinho levanta o tronco num pulo. em poucos segundos, ele consegue reagir indignado por ter sido ressuscitado justamente naquela hora de festança. dali a algumas cenas, a novela estaria terminada.
a cena deve estar vagando em algum site do youtube. é só procurar que você acha. quem estiver interessado…
o que achei engraçado é que há muito tempo numa tarde dessas, duas senhoras vindas do tj… não, não era tribunal de justiça, e sim testemunhas de jeová. elas bateram à minha porta e disseram, entre outras coisas, que quem não estivesse convertido à religião delas, não iria ingressar numa espaçonave que viria resgatar os escolhidos no fatídico fim do mundo. após o embarque iriam todos para o céu.
perguntei como é que era esse céu e se lá tocava funk. ao que elas reagiram negando assustadas. retruquei dizendo que esse céu deveria ser um lugar muito chato. indignadas, elas foram embora mas deixaram um impresso da igreja delas.
qual não foi a minha surpresa, ao ver que emanuel carneiro, o autor de "cobras e lagartos" dividiu comigo indiretamente a mesma visão catártica do paraíso?
enfim, esse pequeno interlúdio foi um lufada de ar fresco na mesmice global.
por dedé a.k.a. homobono