21/9/07
TROPA DA ELITE

Como diria vovó: "Cada povo tem a elite que merece". Eu como resenhista amador desconheço frase melhor para resumir o mega blockbuster que estreou primeiro no camelódromo da Uruguaiana e depois no Festival do Rio. O bang-bang carioca é um corte epistemológico no caos maior que é a gestão pública no Brasil. O diretor Jorge Padilha conseguiu fazer uma abordagem sistêmica da corrupção endêmica da sociedade brasileira. O resultado é um retrato feio do aparato policial mas que revela intencionalmente um cenário mais feio ainda, e não estou falando da pobreza ou da favelização, mas dos mecanismos da gestão da precariedade. A elite política-econômica-burocrática produziu um monstro que ameaça a todos, inclusive a ela mesma. Aqui o Estado é mínimo para os pobres e máximo para os ricos. Nosso Leviatão-macunaímico é um ser truculento e de complexo manejo. O Bope, enquanto membro do monstro, se jogado à exposição pública mostra o quão vexatórias podem ser suas operações, mas nas sombras é o mal necessário no inadministrável controle das zonas de guerra do Rio de Janeiro.
As cenas do treinamento dos "caveiras" mostram que essa não é uma tropa policial, é um aparato repressivo militar concebido para ser eficaz na solução do problema, prudente na conservação dos soldados mas sem comprometimento de salvaguardar inocentes ou agir de acordo com a lei. O Estado que não se compromete em garantir a segurança de todos delimita até onde vai a civilização, fora dali é o estado de natureza hobbesiano, o popular vale-tudo. Por isso documentários estrangeiros costumam qualificar o Bope como "Wardogs", o próprio símbolo da coorporação desvela a missão de seus soldados. O processo de desumanização a que o candidato à "caveira" tem que passar é um batismo espartano que forma o esprit de corps necessário a uma organização que tem o compromisso de disputar o monopólio da violência com uma horda de bárbaros que se multiplica a cada dia. Uma batalha inglória de homens corajosos que se submetem a um estilo de vida temerário em troca de alguns poucos tostões.
De que serve ter a tropa mais feroz do mundo se não se consegue desarticular os poucos chefões que operam o tráfico de droga? E mesmo se prendêssemos todos os bandidões quantos segundos demorariam para que fossem devidamente substituídos? Se a sociedade está realmente apavorada com a escalada da violência porque não há uma diminuição do consumo de drogas? Foram algumas das muitas perguntas que ficaram na minha cabeça depois de ver o filme.
Rexblex
(a.k.a. victor cardoso é amante de dub, black music, grooves e rocks de procedência mais que atestada)
criado por djangos
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