23/11/07
djangos adventures II

voltei apressado para as escadarias da entrada principal do teatro. depois da última campanhia, ninguém entra, por isso não quis arriscar. o exame urológico com o vigia durou três versos mais ou menos. ao ouvir que eu estava limpo ele coçou a cabeça, deixando no ar um mistério a respeito de seu histórico venéreo mais recente. no que ele finalmente revelou ter contraído uma moléstia mais conhecida na bahia como "chapéu chinês".
ansioso para ver o maestro tropicalista julio medaglia, regendo orquestra sinfônica do theatro municipal do rio de janeiro, no evento clássicos populares, eu preferi pensar que o chapéu chinês fosse mais um artigo jocoso do repertório do vigilante e procurei me manter tranqüilo. de qualquer forma um exame com médico competente há de ser marcado para uma vistoria especializada. mentalizando esperança para o futuro, consigo entrar no teatro passando pelos seguranças que antes me barraram. eles sorriem receptivos sem saber que as minhas calças estavam úmidas. "peguei uma chuva", justificou seu dono.
paciente portador de "chapéu chinês"
jj aquino havia comprado nossos ingressos para a galeria. pegamos o elevador que nos levou lá para o terceiro ou quarto andar do prédio. lá em cima queria sentar em qualquer lugar que desse para ver todo o palco, mas jj me alerta que as cadeiras são numeradas e que devemos procurar as nossas em meio a tantos assentos já ocupados. ficamos meio perdidos por causa disso e algumas pessoas notaram que não éramos habituais daquele recinto. é fácil notar isso quando uma pessoa vai pela primeira vez, por exemplo, a uma casa de suíngue, um restaurante japonês ou a qualquer posto do ministério do trabalho. tudo isso sem hostilidades, é claro, porque nos ajudaram e achamos nossos lugares.
olho ao redor e vejo muita menina bonita. aliás, o público é o mais heterogêneo possível, com senhoras com leque e binóculos minúsculos, casais apaixonados, senhores conspícuos, crianças e adolescentes, religiosos, gente que não usa boné, enólogos, etc.
jj e eu havíamos ido parar lá no theatro porque parecemos ter visto ao mesmo tempo na tv uma reportagem sobre esse evento que juntaria obras famosas, tanto quanto de óperas e balés como de temas famosos de filmes como "west side story", de leonard bernstein e de "guerra nas estrelas", de john williams, no intuito de mostrar por inteiro as músicas que tocam em celulares, comerciais de sabonete ou que habitam nossa memória, mas das quais desconhecemos o nome e seus autores. tudo isso regido por julio medaglia, controverso personagem a quem eu já vi esculachando muita gente na música e pedindo, inclusive, para ser vaiado quando visitou o programa de serginho grossman. por apenas r$ 5 não podíamos marcar bobeira.
maestro julio medaglia
os integrantes da orquestra surgem no palco e parecem um verdadeiro batalhão, com tanta gente. logo depois júlio medaglia aparece e é efusivamente aplaudido (ele não deve ter gostado). o espetáculo começa e todo mundo fica em silêncio, principalmente porque nenhum dos instrumentos é microfonado (isso aqui não é punk rock!!!!), o que me deixa impressionado já que se pode distinguir cada um dos intrumentos ou de suas respectivas seções (metais, cordas, percussão e madeiras). a percussão nos chama muito a atenção com seus quatro integrantes e seus enormes tímpanos, com seus sons característicos de filmes de bang bang.
timpanista em ação
as músicas vêm uma após a outra e você não pode dizer que não conhece nenhuma, todas são famosas. a gente só não conhecia toda a sua extensão. ao fim de uma delas, uma senhora se exalta, levanta e bate palmas gritando "bravo! bravo!". ninguém faz menção de arremessar em sua direção algum bagaço de laranja ou copo de mate-leão cotendo urina humana. foi isso que aconteceu quando fui ver papai noel no maracanã e um casal de idosos se levantou com medo das hélices do helicóptero. mas não estávamos no maraca, eu havia esquecido.
espetáculo no municipal é que nem show do pink floyd, tem intervalo. no que saem todos integrantes e os roadies de terno e gravata botam dois pianos frente a frente. seria a hora dos dois únicos solistas da noite: wagner tiso e lilian barretto. enquanto isso, uma senhora ao nosso lado nos interpela perguntando se entendemos de música. jj aquino não perdeu tempo: "estudo harmonia". só faltou completar com um "madame". "por que um piano está com a tampa aberta e o outro com a tampa fechada", perguntou a dona do binóculo de teatro. "é por causa da acústica", respondeu nosso baterista completando que o piano, na verdade, é um instrumento de cordas. "há vários martelinhos lá dentro que batem num grupo de cordas". a moça escutou desconfiada e encerrou o papo logo ali. eu aproveitei essa hora para fornecer meu folheto de programa às várias meninas, de 18 a 81 anos, que me pediam para dar uma rápida espiadinha.
o maestro voltou com a orquestra e os solistas e juntos tocaram uma do piazzola, "adiós nonino" . e guardaram para o final a melhor parte com o "bolero", de ravel", talvez a mais famosa das peças tocadas. nessa hora, os roadies colocaram a caixa da bateria à frente de medaglia, visto que a música começa com sucessivas viradas na caixa num crescendo espantoso de tão exato. nessa hora jj aquino, deu mais uma contribuição. não sei se por nervorso, por alergia ao ambiente centenário ou por puro espírito de porco, tossiu ruidosamente várias vezes, correndo o risco de atrapalhar a concentração do seu colega baterista ou até mesmo do maestro, que tentou por duas vezes encontrar o autor das notas guturais, olhando rapidamente em direção às galerias mas sem sucesso.
findo o bolero, a orquestra voltou e repetiu duas músicas. não lembro quais pois minhas pernas começaram a coçar e eu fiquei agoniado desejando minha bermuda de volta. por isso senti um tremendo alívio quando, no fim de tudo, efetuei a troca.
ganhamos as ruas da cinelândia quando caía uma chuvinha fina.
por dedé a.k.a. homobono
criado por djangos
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confirmado: "operação são jorge" está fora da trilha sonora oficial do filme "tropa de elite"





proibido entrar de bermudas
