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3/1/08

heroes

mc créu

criado por djangos    11:34 — Arquivado em: Sem categoria

o grande irmão não é cafona

acabei de ler "eu não sou cachorro não", de paulo césar araújo. para quem não associou o nome à figura, trata-se do autor da biografia não-autorizada de roberto carlos que foi retirada das lojas  via pendenga judicial.
"eu não sou cachorro não" é de 2002, portanto, anterior à biografia do rei. o título do livro entrega o jogo. nele, araújo fala sobre um tipo de música produzida aqui em pindorama, e que é contemporânea - desde sempre - de chico buarque, caetano veloso, gilberto gil, zé ketti, paulinho da viola, geraldo vandré, nara leão, joão gilberto, jorge ben, etc, mas que não ocupa na historiografia nacional que se dedicou a mapear a produção musical brasileira - de diversos períodos até a época atual - nenhum capítulo sequer. uma música consumida pelas classes c, d, e, f e g, e dita sem qualidade artística, estética ou cultural digna de nota, mas que vendia milhões de discos e dava cacife às gravadoras bancarem a fabricação das canções compradas pelas classe a e b. algo que se convencionou a ser chamado de cafona e era defendido por nomes como odair josé, valdick soriano, fernando mendes, wando, luis ayrão, benito de paula, agnaldo timóteo, paulo sérgio, nelson ned e muitos e muitos outros. o famigerado brega.

para ser mais claro, digamos que se alguém, hoje ou daqui a duzentos anos, se dispusesse a conhecer a música nacional, consultando apenas essas publicações, ignorando o farto material arqueológico de long plays, revistas, jornais e relatórios de bilheterias de show brasil (e mundo) afora, simplesmente, não tomaria conhecimento dos cantores ditos cafonas. araújo dá diversos exemplos dessa tal produção historiográfica, como a enciclopédia da música brasileira e a coleção história da música popular brasileira, e diz que ela foi escrita por gente intelectualizada, chamada de "enquadradores da mpb", ou seja, críticos, historiadores, pesquisadores e musicólogos vindos de castas superiores, o que explicaria esse extermínio do brega na memória nacional. depois disso cita o historiador francês jacques le goff que afirma: "é preciso interrogar-se sobre os esquecimentos, os hiatos, os espaços em branco. devemos fazer o inventário dos arquivos do silêncio e fazer a história a partir dos documentos e das ausências de documentos". o que nos leva a concluir que as classes dominantes também querem dominar o que é contado nos livros através de seu viés pré-fabricado.

lendo "eu não sou cachorro não", lembrei imediatamente do romance de george orwell, 1984. publicado em 1948, orwell contava a história, passada numa inglaterra futurista e descaracterizada territorialmente, de wiston smith, funcionário de um tal ministério da verdade, que enfrentava seu expediente alterando o conteúdo de livros e revistas conforme a situação, favorável ou não, ao regime no poder, nesse caso, personificado pelo famoso big brother. assim, o que era negado ontem, era afirmado hoje e vice-versa, dando a maior trabalheira ao nosso personagem. essa é apenas uma faceta muito prosaica de 1984. leia mais sobre esse fabuloso livro aqui.

imaginei que o grande irmão aqui de pindorama é metido a besta e quer parecer erudito, culto e pernóstico. e para manter as aparências mandou seus funcionários do ministério da verdade excluírem definitivamente o brega de seus registros.

minha preocupação parece datada ou coisa de teoria conspiratória, já que los hermanos e mombojó gravaram músicas de odair josé, e acabou la tequila tocava reginaldo rossi nos seus últimos shows (sabe-se lá que valor sociológico isso possa ter). porém, mete medo saber que outros processos de limpeza histórica podem estar - e estão - acontecendo com vários outros assuntos. coisas sem importância, como política, por exemplo.

"eu não sou cachorro não" também veio ao mundo dizer que o brega não era tão inócuo e inofensivo quanto parecia. vários artistas foram perseguidos, censurados, agredidos e mantinham em suas letras preocupações sociais numa sintonia fina com a gente que a consumia aos milhares, o conhecido povão.

há várias outras histórias interessantes, curiosas e reveladoras nesse tomo. vale a pena tomar conhecimento.

não tenha vergonha de ser brega.

por dedé a.k.a. homobono

criado por djangos    9:32 — Arquivado em: Sem categoria
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