22/2/08
o antÃdoto de kanye west

há muito tempo, descobri que o programa tvz da multishow trazia legendas em português para os clips das canções de língua estrangeira que tocavam na sua programação. como a maioria dos artistas era do hip hop estadunidense, abruptamente me vi agraciado com um desfile de versos machistas, homofóbicos, sexistas, arrivistas, rancorosos, ultra-materialistas vindos de rapeiros como 50 cent, ja rule e vários outros da escola gangsta chique metido à besta ou sei lá o quê.
para mim, que nunca entendo nada do que esses caras falam, foi um choque ver que o que os artistas que vendiam milhões e milhões de discos estavam passando esse tipo de mensagem para a garotada.
mas nem tudo estava perdido. na mesma leva de artistas de rap, figurava um tal kanye west, de quem eu vi um clip muito bem-humorado de "touch the sky". cheio de ironias e meio metalingüístico (como os rappers costumam ser), vi que ali tinha algo diferente, algo espirituoso, otimista e positivo, um verdadeiro antídoto anti-verborragia inútil e materialista.
"touch the sky" era do disco "late registration", de 2005. ano passado, kanye lançou seu terceiro disco, "graduation", que angariou resenhas entusiasmadas e unânimes por onde passei meus olhos. eu tenho que reconhecer, sem nenhum sacrifício, que essa unanimidade não é burra e que kanye west é foda.
pode parecer absurdo o paralelo, mas kanye me lembra muito o modo como marcelo d2 trabalha. d2 sampleia pérolas do samba e dos bambas das variações que o gênero tem (como o afro-samba e o samba-jazz) e vai compondo seu material com matéria-prima valiosa. kanye, por sua vez, "pega emprestado" as camas vindas do soul e funk antigos (tesouro americano) e bota o bloco na rua.
não sou nenhum conhecedor arqueológico de música, mas confesso que é divertido descobrir, por acaso, daonde kanye tirou o sampler que rola em "touch the sky". nesse caso, trata-se de "move on up", de curtis mayfield. dezenas de outros permeiam o trabalho de kanye e eu sigo ignorante sobre os nomes dos acepipes pescados por ele nesse seu "graduation", como a bela e comovente "i wonder", uma das minhas preferidas. além de ter construído um climão com piano e uma bela voz aveludada de não sei quem, kanye opta por não disparar sua língua à toa, catequisando seus ouvintes sobre a possibilidade de "ser quem se quer ser", sem ser prolixo como o hip hop é ou tem sido.
pesquisando algumas figuras para ilustrar essa postagem, deparei-me com duas capas da rolling stone original com o cara, ambas muito interessantes.
a primeira traz kanye encarando 50 cent enquanto se faz a pergunta sensacionalista: "quem é o rei do hip hop?". como na briga do ls jack e o artpopular no aeroporto santos dumont, não preciso dizer para vocês para quem eu torço nessa contenda aê. a própria rolling stone resenhando "curtis", de 50 cent, constatou que o afilhado de eminem andava meio defasado em relação ao afilhado de jay z.

a segunda, da época do lançamento de "late registration", traz o mc com uma coroa de espinhos na cabeça emulando… ah, não precisa dizer quem, cara! a matéria data de fevereiro de 2006, às vésperas do grammy, onde ganhou três dos prêmios a que concorreu, e insiste em mostrar um kanye west cheio de si, quando na verdade, na minha humilde perspicácia, o cara só pratica o que prega. por isso, segundo jon brion, produtor que trabalhou com west nesse álbum, o rapper deveria ser uma espécie de best seller da auto-ajuda nos estados unidos, o que na frente dos discursos de "novo rico" da turma de 50 cent, descontando as arapucas marketeiras do mainstream, chega a parecer algum escrito perdido de nietzsche.
na boa, o cara pode até ser um grande fanfarrão, mas a música que ele produz, as letras que escreve, a verve afiada, sua opção em ser positivo, tudo isso lhe confere respaldo suficiente para que seja escutado com louvor.

por dedé a.k.a. homobono
criado por djangos
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