16/4/08
hindsight
"esteja alerta para a regra dos três: o que você dá, retornará para você. essa lição, você tem que aprender. você só ganha o que você merece".
onde anda o dj túlio? foi ele que gravou uma fita k-7 com o disco duplo do ao vivo do mano negra no japão para mim. o cara morava em jacarepaguá e era chegado da galera do zumbi do mato. ele havia esbarrado com os djangos numa encarnação em que nos chamávamos corações e mentes e achara ridícula a nossa versão para "deeper shade of soul", do urban dance squad.
por ter amigos em comuns, como o também dj marcelo riot, que vendia vinis na 13 de maio, acabei me aproximando dele e vendo que túlio se amarrava num monte de bandas que eu também gostava. é claro, que ele estava a milhões de anos luz a minha frente. lembro bem de um dia chegar para fazer a passagem de som num show (já como kamundjangos) onde túlio iria discotecar. nas carrapetas já rolava um som muito, mas muito esquisito e, vou ser sincero, muito chato. perguntei ao dj o que era aquilo.
"portishead", respondeu ele enquanto ia pegar uma cerveja.
naquele tempo postishead não me interessava, fazendo menos minha cabeça do que o operation ivy, mighty mighty bosstones, bad brains, além das gravações que eu ia catando do mano negra.
tempos depois (caraca, 1998) liguei a televisão bem na hora em que transmitiam o free jazz festival de são paulo. um negão (mushroom) mais sinistro do que o seu jorge repetia hipnoticamente: "karmacoma! jamaica aroma/ karmacoma/jamaica aroma". as legendas que vieram a seguir ensinaram erroneamente o nome da música ("hymn of the big wheel", quando na verdade era "karmacoma") mas não o nome da banda: massive attack.
achei uma pena ter descoberto o tal do trip hop tardiamente. na época, com o dólar quase igual ao real (ou seria o contrário?) eu tratei de pagar minha dívida com o passado comprando via internet o "protection", segundo cd do massive attack. por ter afinidade com o reggae no que diz respeito às freqüências mais graves, o trip hop me soou muito familiar e abriu caminho para descobrir dj shadow, asian dub foundation, saint germain, apollo 440 e outras coisas (não necessariamente trip hop - que é apenas mais um rótulo) que deram um nó na minha cabeça skaraggapunkrock.
lembro que na época, os amigos na internet se comunicavam via icq e muitos deles assumiam apelidos uns mais ou menos esquisitos que os outros. o meu, por exemplo, era mutator. havia uma menina que usava o nick mysterons. ao encontrá-la pessoalmente, perguntei daonde vinha o seu nome do icq. então, mais uma vez o portishead surgiu na pauta do dia, já que mysterons era o nome de uma música deles. perguntei se portishead era bom mesmo, no que ela me respondeu "claro". melhor do que o massive attack?, insisti. "mil vezes", ela foi categórica.
não sei o que aconteceu logo depois disso. mas sei que catei umas músicas do portishead aqui e ali e tomei um choque. novamente, eu estava chegando atrasado num lugar onde mó galera já tinha estado antes e se esbaldado. tal constatação se reforçou quando eu descobri um vocábulo em inglês que descrevia perfeitamente o que se passava comigo nessas horas: hindsight. segundo o dicionário on line da cambridge significa (tradução livre minha) a habilidade de entender um evento ou situação somente depois que estes acontecem.
meu pai de santo me tranquilizou a respeito do meu discernimento tardio, dizendo que o meu coração é que era mais rápido do que minha mente. confiando na metafísica e nos blogs de mp3, resolvi ficar mais relax em relação a isso.
de qualquer forma, àquela altura conhecedor de algumas músicas do portishead eu me lembrei do dj túlio e da primeira impressão que tive ao escutar uma música dos caras num pub enfumaçado de botafogo. quanta diferença.
recentemente, ao conhecer rexblex, blogueiro, amante de dub, black music e músicas de boas procedências, aqui na empresa onde trabalho, fui agraciado com uma cópia do dvd que os caras gravaram em nova york acompanhados de uma orquestra e toda aquela boa impressão que tinha da banda se confirmou. ainda mais podendo ver as imagens de adrian utley, o guitarrista de jazz todo classudo tocando sua telecaster ou um minimoog ou geoff barrow, o turntablista fazendo aqueles scratches esquisitos e bacanas ou ainda a cantora de gelo seco beth gibbons. quanto a utley era engraçado ver que um instrumentista de jazz executasse um arranjo tão minimal e hipnótico.

eu prosseguia na minha vida pacata, gravando o disco do djangos e pegando meus ônibus quando subitamente recebi, via blogs, a notícia de que os portisheads lançariam um disco novo. juro que foi uma ótima surpresa, já que estava alheio a qualquer atividade da banda, pensando que ela estivesse extinta e seus ex-membros vivessem de dar palestras sobre o advento do trip hop, biografias ou então de processar uns aos outros.
mas está aí. o esperado "third". incensado pelos blogueiros como um disco no qual os caras não fizeram paródia deles mesmos, republicando as idéias dos scratches, por exemplo, o que soaria datado hoje. os blogueiros parecem ter gostado mas a seção de comentários nos respectivos blogs parece dividida. muitos gostaram, muitos ficaram indiferentes.
os caras estão em turnê pela europa e vi muitos comentários entusiasmados no myspace deles, alguns vindos de portugal. muitas pessoas extasiadas. eu as invejo do fundo do meu fígado.
depois de todo esse retrospecto emocional, não me atrevo a fazer resenha do disco para ninguém (haáháhah´- que pretensão, hein?). mas posso dizer, com alívio, que "third" dessa vez não foi vítima do meu contumaz hindsight.
por dedé a.k.a. homobono
criado por djangos
16:07 — Arquivado em:
um canário? mike muir (suicidal tendencies)? rudeboy (urban dance squad)? marcelo frommer (titãs) do microfone?
"daqui da minha prisão domiciliar/ ouço os barulhos/ os barulhos do lado de lá…"
