25/9/09
2009, o ano de ouro? (parte 1)
"2009 já entrou para a história da música brasileira como um ano de ouro". quem fala isso é lucas santtana no seu prolífero diginóis. ele estava se referindo a dois discos que foram lançados agora há pouco: "uhuuu!", do cidadão instigado e "iê iê iê", de arnaldo antunes.
a modéstia e a ética impediram lucas de justificar o ano de ouro também com o lançamento de seu "sem nostalgia".
persigo o trabalho de lucas santtana desde quando eu vi o clipe de "de coletivo ou de metrô", na mtv. a música era boa demais e ficava na cabeça, o que me levou a comprar "eletro ben dodô", seu disco de 2000 e me fez descobrir uma cabeça inspirada, bem brasileira misturando guitarras de axé com loops de funk e outras batidas mudernas. esse disco trazia uma versão de "mensagem de amor", dos paralamas do sucesso, que rendeu a lucas o direito de figurar na trilha sonora de uma novela da globo, cujo nome não me lembro mas com certeza não era "saramandaia".
ele lançou ainda "parada de lucas" (inspirada tirada usando o nome do bairro homônimo bem suburbano do rio de janeiro) que mantinha mais ou menos a linha de "eletro ben dodô". fez barulho o seu "samba cubano", que fazia o remix orgânico do funk "som de preto", de amilcka e chocolate com pianos caribenhos e outras levadas do próprio lucas. escutei muito essa música por aí. havia também uma releitura bem ao estilo manu "clandestino" chao, de "punk reggae party", de bob marley, que habitou insistente a minha pequena sound system particular.
"3 sessions in a greenhouse", veio na sequência. perturbador albúm dub gravado ao vivo no estúdio e disponibilizado em seu diginóis desde sempre. se não me engano a partir desse disco, lucas começou a usar a internet de forma intensa aderindo ao creative commons (alguns direitos reservados), abrindo faixas de seu disco para remix e colocando-os em seu site para a turminha ouvir, entre outras providências.
2009 é a vez de "sem nostalgia".
ontem (quinta-feira, 24 de setembro), pela parte da manhã andando de ônibus e com o meu ânimo meio combalido por razões sentimentais, escutei marvin gaye cantando "if i should die tonight", no modo repeat. à tarde descobri esse link e fui fisgado por uma pedrada sutil chamada "hold me in". baixado "sem nostalgia" para o meu i-pobre, foi a vez de escutá-la repetidamente. linda canção triste, cheia de violões com reverbs, pianos aleatórios, bem a ver com a chuva que caiu ontem no rio de janeiro. fiquei obcecado pelo clima um tanto portishead com o timbre da voz de lucas bem ao estilo de caetano veloso.
o disco abre com "super violão mashup", colagem que dá de cara a tônica de todo o disco: a presença do violão com cordas de nylon, marca viva (clichê?) da nossa tradicional mpb. lucas cola várias frases sampleadas de violão encharcado com ambiências (se não estou muito ruim de música popular brasileira, a primeira é "moça", de jorge ben) e cria um mosaico apoiado em batidas e graves de funk carioca. devastador instrumental.
mais adiante há "cira regina nana", com violões e mpc e que poderia perfeitamente estar em qualquer disco do mundo livre s/a. e isso é um elogio meu para ambos, já que tenho quase todos os discos do fred 04.
lucas compôs a maior parte das músicas de "sem nostalgia" em inglês, mas isso não tira a chamada brasilidade (o que quer que isso signifique) do disco, que é assegurada por sua própria sonoridade e pérolas como "amor em jacumã", música de protesto contra a revista caras, de dom romão e luiz ramalho, tão malandra como "nega do cabelo duro".
o disco tem participações especiais de uma turma do mal que tem chamado minha atenção e ganhado o meu respeito, como curumim, joão brasil, do amor, arto lindsay, gustavo lenza, chico neves, buguinha dub, berna ceppas entre outros.
2009 está sendo um ano de ouro? por "sem nostalgia", sentimos que estamos num bom caminho.
por dedé a.k.a. homobono

criado por djangos
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